Hino Municipal de Esperantina
No
retiro de verdes ramagens,
Junto
às margens do rio Longá,
Os
vaqueiros, em vastas pastagens,
Encontraram local salutar,
Onde o
gado, malhando em ribeiras,
Ensejou erigir os currais
Sob as
palmas das belas palmeiras
E dos
leques dos carnaubais.
ESTRIBILHO
Salve,
Esperantina,
-Terra
que amamos com justo fervor!
Salve,
Esperantina,
-A ti
nossa vida, a ti nosso amor!
Sob o
sol ofuscante e ardente,
Sobre
o chão do abrasado Equador,
Homens
fortes plantaram a semente
Da
amizade, do bem e do amor.
Levantaram a cidade fagueira
Com a
força de quem jamais cansa,
Consagrando à gentil Padroeira,
A
senhora da Boa Esperança.
A
cachoeira de rara beleza,
O
Longá a correr ou na calma
E os
encantos da mãe natureza
De
amor extasiam nossa alma.
Os
teus filhos te amam com ardor.
Que
estejam na terra ou distantes,
Sempre
exaltam teu nome com amor,
Se
declaram perenes amantes.
Território bendito e ordeiro,
Berço
amado de bardos viris,
De
homens nobres, de povo altaneiro,
De
mulheres formosas, gentis,
No
progresso constante de envolves,
Mesmo
em tempo difícil e hostil,
E
crescendo, assim, tu promoves,
A
grandeza do imenso Brasil.
Letra escrita em Teresina, em 19/04/1981
Letra e música é do esperantinense FRANCISCO DE ASSIS FORTES, com
arranjo do maestro LUIZ SANTOS.
Algumas histórias de Esperantina
1.
Massacre dos ciganos
O
nordeste brasileiro no início deste século manteve muitos conflitos
entre famílias e posteriormente o cangaço independente.
As
diferenças tradicionais e insubordinação levou tribos nômades a cometer
muitas irregularidades por onde passavam. Vindo do Ceará, com destino ao
Maranhão os ciganos, no ano de 1913, encontravam-se no nosso estado, em
Peixe (Nossa Senhora dos Remédios), onde invadiram a loja do Sr. Antonio
do Rego C. Branco. O chefe do grupo, Benjamim da Rocha Medrado,
dirigiu-se ao Sr. Antonio do Rego, pedindo cachaça e vinho. O Sr.
Antonio do Rego serviu aos bandoleiros o que eles pediram. Depois de
servidos, o chefe do bando sentou-se em uma cadeira que estava próxima
ao balcão, sacou da bota enorme faca e colocou-a sobre Antonio do Rego,
que se achava debruçado sobre o balcão, pelo lado de dentro. Tirando a
faca, aponta para um dos companheiros e diz: -“Olha, fulano, um
espinho, por menor que seja, entrando em nosso corpo nos incomoda;
avalia esta, toda metida no corpo do diabo’!
Dito
isso, pediu um vidro de óleo, abriu e passou no bigode e cabelo e
pergunto o preço. Respondeu o Sr. Antonio do Rego que custava 2$600.
Replica o cigano: -“só vale dez tostões e é o que pago”. Mandou
pegar café e disse a mesma coisa sobre o preço. Pegou os copos que foram
postos para servir o vinho e atirou-os sobre a prateleira, fazendo
descer copos que estavam embrulhados, expostos à venda. Disse injúria e
afirmou: -“Seu Antonio do Rego, o senhor merece é uma visita do
Antonio Silvino”! Retirou-se com zombarias e risadas.
Depois
do ataque, o Sr. Antonio do Rego seguiu para Barras, de onde telegrafou
ao governador e secretário de polícia pedindo providências.
O
governador Miguel Rosa organizou com o secretário de polícia uma tropa
de volantes comandada pelo 2º tenente Manoel da Cruz Oliveira, que
partiu de Teresina na manhã de cinco de novembro num vapor com destino a
Miguel Ales. Chegaram ali no dia sete e encontraram o cigano por alcunha
de “Seu homem”, com seu pequeno bando. O senhor Manoel da Cruz intimou-a
retirar-se do nosso território, em virtude de ordem, por escrito, do
governo do Estado. Seguiu o 2º tenente para Marruás onde teve notícias
dos ciganos a umas cinco léguas, no lugar Campo Largo. Estes obedeciam
ao líder Liberato Guerreiro, que havia jurado, na casa do coronel
Marcelino Rego, tirar a vida do capitão Antonio Rego.
Chegando a força oficial a Campo Largo de madrugada, o tenente Manoel da
Cruz postou a força policial deitada em linha de atiradores, a uns 60
metros do acampamento dos ciganos. Mandou ter com eles o guia de nome
Abel intimar Liberato a comparecer à sua presença. Ordenado a sair de
nosso território, respondeu, arrogantemente, que não se retiraria, nem
mesmo se fosse preciso lutar. O tenente Oliveira prendeu Liberato
Guerreiro, entregando-o ao 1º sargento Anísio e ao cabo Leandro. Em
seguida ordenou que a força avançasse acelerado rumo à casa ocupada
pelos ciganos sendo recebidos trinta metros adiante com alguns tiros.
Vendo que seria necessário reagir energicamente, ordenou que deitasse a
força e desse uma descarga na mesma direção de onde partiram os tiros.
Protegidos pela noite, os ciganos fugiram. Chegando ao local em que
antes se achavam os fugitivos, encontraram uma mulher morta por bala da
força e, pelos sinaisde sangue encontrados, é possível que havido
feridos. O dono da casa, um pobre lavrador que os ciganos obrigaram a
dar-lhes pousada e alimento foi ferido no ventre por bala de rifle, pois
deixara um orifício de mais de cinco centímetros na saída. Por ocasião
do tiroteio o cigano Liberato Guerreiro tentou matar o 1º sargento
Anísio com um punhal, travou-se então uma luta corporal que acabou com a
morte do cigano. O civil, dono da casa veio a morrer.
Regressando a Marruás, encontraram no caminho um pequeno grupo de nove
ciganos que não resistiram às ordens e se retiram do nosso território.
Em poder deles não encontraram nenhuma arma. No Marruás, deu descanso à
tropa e foi ter ao lugar Tanquinho, onde constava achar um grupo de
cigano, o que não era verdade. Dali seguiu novamente a Marruás e a Peixe
onde recebeu um guia de confiança e dirigiu-se ao Retiro da Boa
Esperança, percorrendo diversos lugares e pousando no lugar Beiru. Ai
teve notícias do bando chefiado por Benjamim da Rocha Medrado que
pernoitara a uma légua de distância, no lugar Engano. Resolveu o tenente
Oliveira seguir com a tropa somente pela manhã, a fim de evitar algum
incidente como se deu em Campo Largo. Chegando lá, o bando já havia
levantado acampamento. Continuou a tropa a marchar para o Retiro,
alcançando-os a duas léguas do povoado. Tentou dialogar, sendo
respondido a bala, que só não teve efeito devido à distância de os
quatrocentos metros que se encontraram andando a pé e a cavalo. A força
policial acompanhou-os na entrada do povoado na manhã do dia 11 de
novembro daquele ano de 1913. Ao entrar no Retiro da Boa Esperança,
houve o choque do bando, cerca de duzentos ciganos com a força policial.
A força policial deitada respondeu ao fogo. Os ciganos atiravam de
dentro do povoado.
Encurralados, refugiaram-se na casa do Sr. Manoel Lages, dizendo-se
perseguidos e que eram homens de bem. A força policial procurou logo
cercar a casa, auxiliado pelo proprietário, que um dos ciganos quisera,
segundo ela, matar a pistola, quando procurava tirar o filho dos braços
de uma cigana. O cabo Leandro foi mandado com dez praças para intimá-los
a saírem e renderem-se entregando as armas. Benjamim Medrado, o chefe do
bando, respondeu que não se sujeitava a intimações e que o destino dele
era aquele e não entregava as armas.
A casa
do coronel Manoel Lages foi invadida, com seu auxílio, pela força
policial, tendo os ciganos fugido pelos fundos, refugiaram-se nas matas
próximas, de onde fizeram fogo a força policial. O tenente Manoel da
Cruz Oliveira também ordenara abrir fogo sobre eles. Morreram no
tiroteio nove ciganos, inclusive o chefe Benjamim Medrado. Foram
baleados um menino cigano, duas ciganas e um homem do povo. Dos
fugitivos, muitos voltaram para o Ceará, outros atravessaram o Parnaíba
para o Maranhão.
Seus
bens foram confiscados, muitos deles devolvidos a seus donos. As
mulheres ciganas foram amparadas, recebendo transporte, alimento e
dinheiro.
Inquérito policial foi instaurado para apurar os crimes, depuseram
muitas testemunhas. Os ciganos mortos não tiveram nenhum tratamento,
sendo enterrados no cemitério velho, em vala comum.
O
segundo tenente Manoel da Cruz Oliveira, permaneceu no Retiro da Boa
Esperança por mais três dias, depois voltou a Teresina sendo recebido
como herói. Mais tarde, após apuração do massacre foi afastado da força
policial a bem do serviço público, tendo sido seus atos julgados
arbitrários.
2.
Peste negra
No
início do século, quando o povoado Retiro da Boa Esperança começou a ser
realmente desbravado, desmatado e edificadas muitas residências, o povo
foi acometido de uma grande epidemia que quase o dizimou. As pessoas
encontravam-se de mãos e pés de cor amarelada, febre alta, vômitos de
cor preta e feridas na gengiva. O povoado vendo-se atacado pela
enfermidade que desconhecia, batizou-a de peste. Peste e negra para
matar grande parte da população daquela época.
A
falta de médicos levou muitas pessoas ao cemitério, às vezes três ou
quatro no mesmo dia. As mortes eram tão freqüentes que já não dava para
fazer caixão, enterravam na própria rede do falecido.
Foi
quando o povo e os vaqueiros viram no gado a única salvação, para isso
reuniam grande manada que se batiam nas ruas estreitas do povoado.
A
crença de que o bafo do gado cura doenças é antiga como também de que a
pessoa que dormia perto dele estava protegida de todo malfazejo.
E,
suplicando ainda pela intervenção de São Sebastião, protetor das pragas,
o povo fez promessa de que se o santo livrasse o Retiro da Boa Esperança
da peste passaria a festejá-lo. E Cristino Félix de Melo esculpiu uma
imagem do santo que passou a ser festejado como o segundo padroeiro,
assim surgindo os festejos de São Sebastião.
3.
Chacina negra
No
festejo de São Sebastião , do ano de 1947, o padre teve que antecipar a
festa religiosa para participar de um retiro espiritual de padres que
aconteceria naquela data. O último dia do festejo ocorreria em 16 de
janeiro, mas por volta do meio dia surge um grande incidente. Havia
muitas bancas de jogos caipira e outros; as maiores freqüências,
entretanto, davam-se nos jogos de baralhos e tampinha, onde os
mercenários faziam furtos. Neste dia, Crispim Borges não estava como
sorte; jogava tampinhas e perdia sucessivamente, trapaceado e enganado
pelo profissional do jogo. Crispim havendo feito uma aposta maior e,
perdendo, zangou-se, reclamou do jogador, dizendo que ele havia lhe
roubado. O jogador respondeu que não devolvia dinheiro algum. Que aquele
jogo era pra perder e não ganhar. Crispim derrubou a banca de jogos. O
dono partiu para cima de Crispim, este deu-lhe um tremendo bofete,
atirando-lhe ao chão, quando se levantou deu um ponta-pé em Crispim que
foi também ao chão. Chega mais membros negros da família Borges que
tomam partido de Crispim e travam luta sangrenta na base de socos e
pontapés. A polícia chega e intervém, prendendo Crispim.
Os
irmãos, vendo Crispim se preso, reagiram com murros. Travou-se
verdadeira luta entre os Borges e o corpo de polícia. Armados de paus e
pedras os Borges espancavam a polícia e os donos das bancas de jogos. A
polícia pediu reforço, vieram policiais armados de rifles. O povo chama
o tenente Diniz, na época também prefeito do município. Diniz Chaves
saiu a frente de sua casa para ir tentar apaziguar a briga, sendo
imediatamente alvejado com uma pedra, lançada pela família dos negros.
Não se sabe ao certo quem atirou, tendo o prefeito caído, entrando em
estado de coma, causando grande clamour na cidade. Com o atentado ao
prefeito, a polícia começou a atirar na família Borges. No tiroteio
morreu Raimundo Borges com um tiro que lhe amputara a mão. Miguel ficou
quase estraçalhado no chão. Crispim ficou gravemente ferido, morrendo
depois de muito haver sofrido. Seu pai um ancião, fugiu nadando no rio.
Na travessia foi brutalmente morto por um soldado. Morto, o senhor foi
arrastado sem piedade. A roupa do velho ficou aos trapos. O corpo
dilacerado, o sangue esvaziava por todo o percurso. Próximo à casa do
prefeito, foi jogado ao chão pela polícia.
A
família do prefeito, vendo o velho dilacerado, ficou apavorada. Muitas
pessoas saíram feridas a pauladas e pedradas. A cidade ficou
aterrorizada, o padre suspendeu a festa, não ocorreu nem a procissão,
pois as ruas encontravam-se ensangüentadas.
O povo
e a família do prefeito não tinham esperança que o tenente Diniz ficasse
bom e muitos choraram sua possível morte. No entanto, restabeleceu sua
saúde, foi homenageado como festa pelo povo, tendo ficado muito
agradecido pelo carinho recebido.
A
família Borges ficou quase dizimada pela força brutal da polícia que
agira com arbitrariedade.
E
assim, toda vez que se antecipa os festejos de São Sebastião, acontece
alguma coisa, segundo a crença popular.
Extraídos do Livro
"Aspectos de Esperantina" de
Valdemir Miranda de
Castro